Um país (parcialmente) abençoado na siderurgia

Se com relação ao minério de ferro o Brasil é realmente abençoado, com relação ao carvão a coisa é bem diferente. É comum brasileiros, mesmo aqueles mais críticos, dizerem que a natureza foi generosa com o Brasil. O país tem água em abundância e até petróleo, este último de uns tempos para cá. Possui ainda grandes reservas de minerais e é um dos grandes produtores de metais.

Para quem não sabe, os metais aparecem na natureza sob a forma de minerais, geralmente óxidos. Extrair os metais dos minérios é relativamente complexo e utiliza recursos naturais e energéticos. Exemplos típicos são o alumínio e o ferro: no caso do primeiro, para isolar o metal do óxido se usa eletricidade. Muita eletricidade. Para se extrair o ferro do óxido se usa carvão. Muito carvão.
Quantidades imensas de minério de ferro e carvão são jogadas em fornos gigantescos e de lá saem dióxido de carbono e ferro-gusa. O gusa trata-se de um tipo de ferro ainda impuro, mas convertido com certa facilidade em aço, um dos materiais mais consumidos do mundo, junto com o cimento, a água e a madeira. O aço é uma liga (mistura) de ferro puro com até 2,11% de carbono, este último o principal elemento que constitui o carvão.

Segundo dados de 2008 do Ministério das Minas e Energia, o Brasil tem quase 7% de todo o minério de ferro sabidamente existente no planeta. Ainda segundo o Ministério, o Brasil é o maior produtor de minério de ferro do mundo, detendo 22% do mercado e disponibilizando anualmente mais de 350 bilhões de quilos do minério. Parte é exportada (76%) e parte é beneficiada internamente: é o 9º maior produtor mundial de aço, com 2,5% da produção mundial. Essa produção brasileira totaliza quase 35 bilhões de quilos por ano, sendo que 67% é a fatia que abastece o mercado interno. Ou seja, 23 bilhões de quilos é a quantidade de aço consumida aqui mesmo no Brasil, por setores como a construção civil e as indústrias automobilística e alimentícia (embalagens).

Se com relação ao minério de ferro o Brasil é realmente abençoado, com relação ao carvão a coisa é bem diferente. Segundo o Ministério das Minas e Energia, o Brasil importou em 2007 um total de 13,5 bilhões de quilos de carvão metalúrgico (99% do total consumido no mercado interno), o carvão utilizado para a produção do aço, geralmente após conversão em coque. Para alimentar a indústria siderúrgica nacional (a que fabrica produtos de ferro e aço) foram necessárias ainda a importação de 1,5 bilhão de quilos de coque pronto e a produção interna de 8 bilhões de quilos de carvão vegetal a partir de 39 bilhões de quilos de lenha, toda ela nacional (o carvão vegetal é matéria-prima alternativa para fornos relativamente pequenos de produção de aço).

Dos 23 bilhões de quilos de aço consumidos no Brasil anualmente, cerca de 1/3 é proveniente de sucata e não da produção a partir de minério e carvão. Na metalurgia, o uso de sucata não é considerado ruim, pelo contrário: é considerada mais madura a indústria que utiliza mais sucata no seu processo produtivo. Para se ter uma idéia, quase 60% do aço consumido nos Estados Unidos vem de sucata.
Tecnicamente, não há distinção entre o aço reciclado e o aço virgem: se convenientemente processado não há diferença nenhuma de propriedades entre eles, o que faz com que não haja qualquer tipo de restrição mercadológica ao emprego do reciclado. Por exemplo, é proibido o uso de plástico reciclado em aplicações em contato direto com alimento. Para o aço reciclado (assim como alumínio e vidro reciclados) não existe essa proibição.

Utilizar sucata é uma alternativa econômica empregada pela indústria siderúrgica mundial desde as primeiras peças ferrosas fabricadas e posteriormente descartadas. As vantagens para essa utilização é que o preço da sucata é relativamente baixo e se soma ao processo também mais em conta, pois consome cerca de 70% da energia utilizada pela conversão do minério. Ambientalmente, as emissões gasosas, os efluentes líquidos e os resíduos sólidos gerados pela reciclagem de aço são, em geral, bem menores que no caso da utilização da matéria-prima virgem. No Brasil, a reciclagem de aço apresenta ainda uma outra grande vantagem: a economia de carvão, um recurso natural que o país praticamente não possui. Reciclando se economiza dinheiro nacional nas importações ou lenha (árvores) brasileira utilizada na fabricação de carvão vegetal.

Créditos:
Este artigo foi publicado na edição de 11/08/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página2 do caderno A - por Sandro Donnini Mancini - professor da Unesp-Sorocaba.