No mundo inteiro, o tema que está cada vez mais em pauta é a questão ambiental e o descarte correto de materiais nocivos que contribuem para o aquecimento global.
A frota de veículos não fica para trás nesse cenário, principalmente no que diz respeito à emissão de poluentes e à reciclagem dos que estão em desuso. Enquanto o Brasil sai na frente com combustíveis alternativos, um exemplo para o mundo com o etanol e o desenvolvimento de carros flex, em reciclagem de veículos o país está bem atrasado.
Estimativas do Sindicato do Comércio Atacadista de Sucata Ferrosa e Não ferrosa (Sindinesfa) apontam que apenas 1,5 % da frota nacional fora de circulação, com uma média de mais de 20 anos de idade, são recicladas. Uma média bem acima do ideal, que seria na faixa dos 10 anos de idade.
Comparando o Brasil com os Estados Unidos ou com a Europa, em que a reciclagem chega a 95% da frota em descarte, o que fazemos por aqui é irrisório, principalmente porque não há uma legislação específica que incentive a reciclagem. Porém, já há um movimento grande nesse sentido, principalmente por iniciativa de entidades ligadas ao setor automotivo, para que o Brasil também dê o seu exemplo ao mundo. Modelos a seguir é o que não faltam, conforme foram apresentados em evento promovido pelo CESVI Brasil, em junho deste ano.
A iniciativa na Espanha
Em conseqüência de uma legislação que trata sobre o destino de veículos fora de circulação, na Espanha desde 2002 o Cesvi e a Mapfre mantêm um centro específico para este fim. Segundo Ignacio Juárez Pérez, da Cesvimap, a Espanha conta com uma frota de 35 milhões de veículos, a maior parte (22 milhões) de passageiros, sendo que apenas entre 2007 e 2008 mais de 1,8 milhão deixaram de circular. "Existe um plano nacional muito focado nos aspectos ambientais para a reutilização de peças, na sua remanufatura ou para a reciclagem dos materiais que as compõem, como o alumínio e o plástico, com a meta de reduzir as contaminações do meio ambiente", explica.
Com um potencial de desmanche de 15 mil veículos ao ano, sendo que no Cesvimap são reciclados 3 mil anualmente, já que o interesse é a desmontagem para a venda de peças e materiais e não a estocagem de produtos, os veículos que ali chegam passam por três processos: descontaminação de materiais, análise de reutilização, reciclagem e estoque/vendas (com capacidade para 22 mil contêineres). "Diariamente, os tramitadores nos comunicam todos os sinistros e pelo perito já sabemos todo o perfil do veículo e seu estado para o reaproveitamento das peças. Todos os veículos que chegam ao Cesvimap são comprados da Mapfre e são os próprios tramitadores que resolvem todo o expediente com o segurado", especifica.
Já a parte de vendas é feita a partir de um estoque real, em que o cliente escolhe as peças desejadas, faz seu pedido por telefone ou internet e, mediante o pagamento e comprovante via fax, elas são entregues em menos de 24 horas ou em até dois dias para localidades mais distantes. Com garantia de um ano para o consumidor final e de seis meses para demais clientes, não são todas as peças comercializadas, principalmente as que estão diretamente relacionadas à segurança. "Estas só podem ser vendidas para empresas especializadas, que estão autorizadas a realizar os devidos laudos de conformidade para o seu reaproveitamento", explica Pérez.
Atualmente, a Mapfre tem uma frota de 100 milhões de veículos segurados. Vale salientar que as peças recuperadas pelo Cesvimap não são destinadas à reparação de seguros. "Isso não significa que no futuro isso não possa ser pensado como uma forma de redução do preço da apólice, desde que o segurado esteja ciente", conclui.
No combate à redução de furtos e roubos
Com a crise financeira da Argentina, desencadeada entre 2002 e 2003, o número de roubos e furtos de veículos triplicou em relação a 2001, principalmente incentivado pela falta de peças no mercado para reposição. Para combater esta ilegalidade, o Governo iniciou uma operação que visava o controle dos desmanches e a maioria deles fechou as suas portas. Com a legalização de centros de tratamentos de peças, as estatísticas apontaram uma redução de 70% no número de roubos e furtos de veículos e os desmanches legalizados passaram a produzir 250 mil peças automotivas mensalmente. Foi exatamente nesta época que o Cesvi local colocou em prática o projeto de um centro de reciclagem, o Cesviauto. Seguindo o modelo espanhol de triagem (descontaminação de materiais, análise de reutilização, reciclagem e estoquei vendas), são cerca de 200 veículos reciclados mensalmente, porém, como diferencial, na Argentina a legislação não permite que a seguradora faça todo o trâmite. Quem o faz é o próprio segurado.
Fabián Pons, do CesviArgentina, explica que o centro trabalha com oito companhias de seguros e a forma de indenizá-las é a concessão de 40% proveniente do lucro com as vendas de peças, sendo 25% à vista e 15% em notas de crédito para consumo em serviços e itens de reposição. Este foi o formato encontrado, uma vez que não são todas as companhias que têm a mesma forma de reconhecer uma perda total. "Algumas adotam como critério acima de 80% do valor dos reparos e outras dão como perda total quando os custos dos consertos são superiores três ou cinco vezes a mais dos preços dos itens dos fabricantes", especifica.
De acordo com ele, o negócio, além de ser lucrativo, proporcionando um faturamento anual de US$ 2,5 milhões ao ano, é imensurável quando analisadas as reduções das estatísticas de furto e roubo de veículos, extremamente onerosas para seguradoras e segurados.
Rumos da reciclagem no Brasil
Dois projetos que tratam o tema reciclagem já estão encaminhados no país. Um deles, de autoria de Reinaldo Nogueira (Projeto de Lei 4.538/08), proíbe que carros considerados como perda total sejam desmontados e suas peças vendidas, o que, de acordo com a proposta, o carro segurado só poderá ser vendido como sucata. Já o projeto do deputado estadual Vanderlei Siraque (n° 13.546/09), tem como proposta a legalização do funcionamento de estabelecimentos comerciais de desmonte de veículos automotores no Estado de São Paulo, determinando que as autopeças usadas e recondicionadas destinadas à comercialização deverão ser gravadas com os 17caracteres integrantes do número do chassi do veículo (VIN) em baixo relevo. :
Há também, segundo José Aurelio Ramalho, diretor de operações do Cesvi Brasil, uma premissa de uma lei especifica que aborda a reciclagem de veículos. "Desde 2001, estudando o assunto reciclagem de veículos e renovação da frota, chegamos à conclusão de que o projeto é viável, inicialmente com veículos cedidos pelas seguradoras".
Entre os benefícios, destaca Ramalho, estão a redução da poluição por meio da remoção correta e destino dos componentes dos veículos em desuso, economia com a venda de peças reutilizáveis e a redução de roubos e furtos de veículos que alimentam o comércio ilegal de peças. "E como um projeto paralelo, poderia ser criado o seguro popular, com apólices verdes, na reutilização de peças recondicionadas ou seminovas em veículos sinistrados", sugere.
De acordo com Sérgio Duque Estrada, diretor de Proteção ao Seguro da CNSeg, o setor apóia massivamente a idéia de desmanches legalizados. "É muito importante uma lei que regularize os desmanches. O comércio ilegal é um alimentador das atividades do seguro no ramo de automóveis, na sinistralidade recorrente a roubos e furtos. Nós temos uma comissão permanente em Brasília que acompanha todos os projetos relativos ao tema e de interesse do setor".
Segundo o Denatran, anualmente são roubados cerca de 380 mil automóveis no país e praticamente a metade (200 mil) são recuperados. Os prejuízos estimados são de cerca de R$ 700 milhões.
Créditos: CIMM - Centro de Informação Metal Mecânica - SC - NOTÍCIAS - 17/08/2009
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